Fecha de publicación: 27/09/2026

São Vicente de Paulo: uma celebração para recordar o seu legado e a sua missão

Conselho Geral Internacional

Todos os anos, a 27 de setembro, a Família Vicentina celebra a festa de São Vicente de Paulo, assinalando o aniversário da sua morte em Paris, em 1660.

Nascido em França, em 1581, São Vicente dedicou a sua vida ao serviço das pessoas mais vulneráveis, reconhecendo nelas o rosto de Cristo. Fundou a Congregação da Missão e, juntamente com Santa Luísa de Marillac, a Companhia das Filhas da Caridade. Foi canonizado a 16 de junho de 1737 pelo Papa Clemente XII e, em 1885, o Papa Leão XIII declarou-o patrono de todas as obras de caridade da Igreja Católica.

O seu legado espiritual e o seu compromisso com a caridade continuam a inspirar a missão da Família Vicentina em todo o mundo.

Por ocasião desta festividade, o Pe. Tomaž Mavrič, C.M., Superior Geral da Congregação da Missão, dirige uma carta à Família Vicentina, na qual partilha uma reflexão sobre a atualidade do carisma de São Vicente de Paulo e o seu significado para a nossa missão no mundo atual.

Em seguida, reproduzimos na íntegra a sua carta por ocasião da festa de São Vicente de Paulo de 2026.

Roma, 15 de setembro de 2026

Aos membros da Família Vicentina

“Quem poderia pensar…”.
O encantamento pleno de gratidão de São Vicente de Paulo,
um dom para toda a Família Vicentina

Queridos membros da Família Vicentina,

A graça e a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo estejam sempre conosco!

A cada ano, no dia 27 de setembro, Solenidade de São Vicente de Paulo, acontece algo que merece ser contemplado com encantamento. Em todos os continentes e em diferentes idiomas, centenas de milhares de pessoas se reconhecem como filhos e filhas de um mesmo pai: Padres e Irmãos da Congregação da Missão, Filhas da Caridade, religiosos e religiosas das numerosas Congregações que se inspiram em São Vicente, membros da Sociedade de São Vicente de Paulo, da Associação Internacional das Caridades, da Juventude Mariana Vicentina, da Associação da Medalha Milagrosa, do Movimento dos Missionários Leigos Vicentinos…

Estamos lá onde São Vicente nos enviou: nas paróquias e nos hospitais, nas escolas e nas cantinas sociais, nos campos de refugiados e nas prisões, nas ruas de nossas cidades, nas missões Ad Gentes… E hoje, em todos esses lugares, celebramos juntos. Quatro séculos não apagaram seu elã, Vicente continua caminhando ao nosso lado e sua voz continua nos indicando um rosto, uma porta para bater, uma mão para cumprimentar.

Permitam-me fazer uma confidência. Talvez nunca tenhamos feito isso de verdade, ou o suficiente. Estudamos Vicente, citamos ele em nossas homilias e em nossos encontros, analisamos suas cartas e conferências, pedimos que ele interceda por nós… mas será que alguma vez simplesmente paramos para agradecer-lhe?

Agradecer-lhe pela dádiva de sua santidade, não uma perfeição abstrata, mas uma vida consagrada até o último suspiro, uma santidade feita de longos dias, de decisões difíceis, de fidelidade cotidiana. Agradecer-lhe pelo dom de seu carisma, esse olhar que soube reconhecer Cristo no pobre é o olhar que ele nos transmitiu, sem que nada tenhamos feito para merecê-lo. Agradecer-lhe pelo dom de sua espiritualidade, uma vida concreta, sóbria, sem artifícios, que ensinou gerações inteiras como se colocar diante de Jesus e diante dos pobres e que descobriu que se tratava de um mesmo movimento do coração.

A gratidão é a primeira linguagem da fé. Vicente sabia muito bem disso, pois tudo o que havia recebido, sua vocação, seus encontros e até mesmo suas provações, o levava a confiar na Providência. Dizer “obrigado”, portanto, não é um gesto sentimental, mas reconhecer que nada do que somos vem de nós mesmos. E, neste dia, antes de qualquer resolução e de qualquer programa, gostaria que toda a Família Vicentina se detivesse neste limiar.

Convido-lhes a parar por um instante para contemplar os motivos pelos quais damos graças. Este dom nasceu no coração de um homem, se espalhou por uma família e foi oferecido à Igreja. É um dom pessoal, comunitário e eclesial, ou seja, três respirações de um mesmo sopro do Espírito.

O carisma e a espiritualidade, como sabemos, não nascem de uma reflexão, mas de uma experiência; não se trata de uma doutrina que Vicente elaborou, mas sim do que ele viveu, lá onde se encontrava, no meio de uma vida de origens modestas. Ele nunca escondeu isso. Em 1633, Vicente escreveu a um padre da Missão: “Sou filho de um pobre lavrador”. Quando uma mulher lhe pediu esmola, chamando-o de “Monsenhor”, ele respondeu simplesmente que era um pobre guardador de porcos, filho de um camponês. Não se tratava de falsa modéstia, era a consciência lúcida de quem sabe que o dom recebido não se baseia em nenhum mérito.

Mas isso não é tudo. Vicente reconhece que, no início, não compreendeu nada do que estava surgindo. Ao contar sobre as origens da Missão aos seus coirmãos, ele admitiu: “Jamais pessoa alguma tinha pensado nisso. Não sabíamos o que era missão, não pensávamos nisso, nem sabíamos o que era”. E ele chega imediatamente à conclusão que é a chave de tudo: “Justamente nisso se reconhece que é uma obra de Deus, pois, nos acontecimentos onde os homens não tomam parte, é Deus que opera, e tudo vem imediatamente dele”. (SV XI, Partilha de oração de 25 de janeiro de 1655, p. 174).

O primeiro traço do carisma e da espiritualidade é pessoal, pois nasce de um chamado pelo nome, que antecede toda compreensão de seu propósito. Vicente não escolheu, ele foi escolhido. Hoje, isso é válido para cada um de nós. Nenhum de nós escolheu por si mesmo sua vocação vicentina. Às Irmãs enviadas a Arras, Vicente dizia com uma precisão também pertinente para nós: “Fostes escolhidas para isso, minhas Irmãs. Fostes eleitas por Deus; vós e não outras” (SV, Conferência de 30 de agosto de 1656, p. 608). Ele as ensinava a rezar com o encantamento de quem ainda não consegue compreender isso: “Quem poderia pensar que vos serviríeis de mesquinhas criaturas como nós?” (SV, Conferência de 9 de junho de 1658, p. 786). Façamos a seguinte pergunta: quando foi a última vez que olhamos para a nossa vocação com esse encantamento, em vez de a considerarmos como algo adquirido?

Mas é precisamente por ser pessoal que o carisma não permanece privado. Chamados pelo nome, descobrimos imediatamente que somos chamados em conjunto, pois o dom busca pessoas concretas, rostos, histórias partilhadas. Isso aconteceu desde o início e Vicente o reconheceu com uma lucidez desarmante. Ao falar sobre o Regulamento das Filhas da Caridade, ele dizia: “Fostes vós que a fizestes, ou antes, foi Deus que as inspirou, pois, minhas Filhas, não poderíamos dizer que vos tivessem sido dadas”. E acrescentou as palavras mais belas que um Fundador possa pronunciar: “Deus pensava nisso por vós! Foi Ele, minhas Filhas, podemos dizer, o autor de vossa Companhia” (SV, Conferência de 14 de junho de 1643, p. 73).

Portanto, o carisma e a espiritualidade constroem a comunidade e a comunhão. Esse é o sonho de Vicente para toda a Família Vicentina: “Que a imagem da Santíssima Trindade [esteja] mais estampada em nós” (SV XI, Conferência de 27 de junho de 1642, p. 126).

O carisma e a espiritualidade são doados à Igreja, na Igreja e para a missão da Igreja. Vicente fala sobre isto com uma profundidade impressionante quando afirma que a nossa vocação é “uma continuação” da de Cristo e que os pobres são a nossa própria herança: “Têm isso de particular, ser, como Jesus Cristo, aplicados [os Missionários] ao serviço dos pobres”. E acrescenta, com toda sua força: “E a isso somos aplicados [ao ofício do Filho de Deus] como instrumentos, por cujo intermédio continua o Filho de Deus a fazer no céu o que fez quando estava na terra” (SV XII, Conferência de 6 de dezembro de 1658, p. 82). Não somos uma simples agência de solidariedade. Somos um prolongamento da missão de Jesus.

No entanto, Vicente sempre traduzia essa dimensão eclesial em gestos concretos e verificáveis. Às duas Irmãs enviadas a Arrás, ele não se contentou em transmitir um ideal; disse-lhes que a primeira coisa a fazer, assim que chegassem à cidade, seria ir cumprimentar o bispo “para pedir a bênção e receber as suas ordens” (SV, Conferência de 30 de agosto de 1656, p. 609). O carisma e a espiritualidade estão sempre inseridos em uma Igreja concreta, em uma diocese, em uma paróquia, sob a orientação de pastores.

Esses três aspectos são indissociáveis. A doação pessoal, sem a comunidade, se consome no entusiasmo de uma única pessoa. A comunidade, sem abertura eclesial, transforma-se em um círculo que gira apenas em torno de si mesmo. E a dimensão eclesial, se não inflamar o coração de cada pessoa, permanece apenas uma pertença puramente teórica.

Chamados pelo nome, reunidos, enviados para além de nossas realidades: esse é o movimento que Vicente recebeu e nos transmitiu. É o mesmo movimento do Evangelho, e é por isso que, quatro séculos mais tarde, ainda estamos aqui para dar graças.

A gratidão, quando é autêntica, não permanece apenas na memória, se torna um compromisso. É por isso que gostaria de lhes confiar três desafios que considero urgentes para a Família Vicentina hoje.

1. Os rostos da pobreza. São Vicente não herdou uma lista de pobres: ele os observou, os reconheceu, os amou e os serviu. Hoje, somos interpelados pelo clamor daqueles que são forçados a fugir de sua terra, pelo sofrimento silencioso dos excluídos, pelas feridas da guerra, pelo impacto crescente das mudanças climáticas, pelo escândalo das desigualdades que privam tantas pessoas de sua dignidade, pela exclusão daqueles que permanecem à margem do mundo digital e pela situação das pessoas deslocadas devido às catástrofes naturais. Diante de questões tão importantes, as boas intenções não são suficientes. Somos chamados a elaborar respostas concretas que restituam a cada pessoa a dignidade que lhe pertence.

2. A comunhão entre os ramos da Família Vicentina. Ainda temos um longo caminho a percorrer juntos e estou convicto de que podemos fazer isso. Não se trata do desejo de dominar, nem da preocupação em defender nossos próprios espaços que nos motivam, mas sim do desejo, mais simples e evangélico, de agir juntos. Cada ramo contribui com um dom e somente ao partilhá-lo, torna-se plenamente fecundo. Somos membros de um mesmo corpo. Comunhão, discernimento partilhado, colaboração e missão são esses os caminhos que a Igreja sinodal nos indica e nos convida para superar as barreiras que ainda nos separam.

3. A formação. Peço a cada ramo da Família Vicentina que faça uma reflexão sobre seu percurso de formação permanente: suas fontes, sua história e, sobretudo, sua capacidade de rever sua experiência cotidiana à luz do carisma e da espiritualidade vicentina. Portanto, encorajo a criação, em cada país e em cada Província, de Centros de Formação Vicentina que surjam da colaboração de todos os ramos presentes no território, não como expressão de um único ramo, mas como uma casa comum a todos. Onde for possível, identifiquem também um local estável, capaz de dar continuidade e visibilidade a esse compromisso, e elaborem programas de formação anual, adaptados às necessidades reais de cada contexto. É assim que podemos caminhar juntos e formar-nos mutuamente, comunicar mais eficazmente e colaborar com audácia e humildade.

Os desafios propostos aqui não constituem uma lista de obrigações, mas um convite para retomarmos o caminho. Ninguém nos pede que consigamos fazer isso sozinhos; pede-se que caminhemos, e o caminho se abre à medida que o percorremos. São Vicente não partiu de um projeto concluído; ele partiu de um encontro, de um pobre que tinha um rosto e um nome e, a partir disso, deixou que Jesus escrevesse a continuação.

Essa é a beleza da nossa vocação, não nos pede que sejamos extraordinários, mas que permaneçamos disponíveis. Ela não nos promete caminhos fáceis, mas nos garante que nenhum passo dado pelos pobres é perdido.

Então, avancemos, sem medo nem precipitação, mas juntos.

A fim de nos prepararmos espiritualmente para a Solenidade de São Vicente de Paulo, que este ano coincide com o 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, o Gabinete de Comunicação da Congregação da Missão organizará uma novena a São Vicente sobre o tema dos migrantes e refugiados. A partir de 18 de setembro de 2026, o texto será publicado nas redes sociais da Congregação e da Família Vicentina. O documento completo também poderá ser baixado em formato PDF.

Italiano: https://congregatiomissionis.org/novena-san-vincenzo-de-paoli/

Espanhol: https://congregatiomissionis.org/es/novena-san-vicente-de-paul/

Inglês: https://congregatiomissionis.org/en/novena-saint-vincent-de-paul/

Francês: https://congregatiomissionis.org/fr/neuvaine-saint-vincent-de-paul/

Unidos pela mesma Palavra, somos um só corpo!

Para contar ao mundo, com autenticidade e profundidade, sobre o coração pulsante da Família Vicentina, a Congregação da Missão optou por uma iniciativa excepcional: convidar um cineasta italiano a viver, durante um mês inteiro, em contato próximo com a Comunidade da Casa Mãe. Dessa experiência extraordinária de partilha e imersão no cotidiano nasceu o documentário “Au Cœur de Paris” (“No Coração de Paris”).

Escrito e realizado por Manuel de Teffé, e acompanhado por uma trilha sonora composta especialmente por Gabriele Croci, este documentário propõe uma viagem visual e emocionante, feito para que o público possa descobrir, apreciar e amar a Casa Mãe de uma maneira inédita. A obra é apresentada por meio de um percurso estruturado e cativante: um prólogo, que mergulha o espectador no contexto geográfico e na atmosfera da Casa Mãe; uma primeira parte, dedicada com profunda devoção ao “mestre da casa”, São Vicente de Paulo; uma segunda parte, que retrata a história do edifício, desde os dias turbulentos da Revolução Francesa até os dias de hoje, dando especial atenção à capela; uma terceira parte, que se abre ao mundo exterior e apresenta as inúmeras atividades missionárias que surgiram deste lugar; uma quarta parte, que apresenta a Casa como ela é hoje, destacando uma relação histórica profunda e pouco conhecida do grande público: aquela que une a Rua de Sèvres e a Rua du Bac. O documentário termina com uma série de breves entrevistas que demonstram a afeição e a familiaridade aos locais e aos rostos da missão.

A fim de permitir que a grande Família Vicentina, bem como os apaixonados por história e espiritualidade de todo o mundo possam apreciar esta obra, o documentário será traduzido para vários idiomas. Até o momento, a versão em inglês do documentário já está disponível no canal do YouTube: Congregatio Missionis.

Confio-lhes à intercessão de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, de São Vicente de Paulo e de todos os Santos, Bem-aventurados, Servos e Servas de Deus da Família Vicentina.

Seu irmão em São Vicente,

Tomaž Mavrič, CM

SSVP Global

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