Fecha de publicación: 24/04/2026

Uma reflexão sobre o tempo pascal

Espiritualidade

20 de abril de 2026

Cristo ressuscitou, aleluia! Ao celebrarmos este primeiro tempo pascal do pontificado do Papa Leão XIV, parece-me ouvir a sua mensagem “Urbi et Orbi” do Domingo de Páscoa como se fosse dirigida diretamente à nossa Sociedade e às casas, abrigos, motéis e salões onde passais os vossos dias e noites em silêncio. Ele recordou ao mundo que “a Páscoa é a vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas, do amor sobre o ódio”, conquistada ao preço da condenação injusta de Cristo e do seu sofrimento na cruz em favor dos pobres e de toda a criação. Isto não é apenas uma bela frase para a Praça de São Pedro; é a descrição do trabalho de um vicentino.

O Papa Leão perguntou como foi possível a Jesus vencer o mal e a morte, e respondeu: o poder da Páscoa é o próprio Deus, “pois Ele é o Amor que cria e gera, o Amor fiel até ao fim e o Amor que perdoa e redime”. Em outras palavras, a “arma secreta” da ressurreição não é a força, mas o amor que se entrega.

O Santo Padre afirmou que o poder com que Cristo ressuscitou é “totalmente não violento”, como um grão de trigo que morre, germina e se torna uma espiga dourada, ou como um coração ferido que “rejeita o instinto de vingança” e, em vez disso, reza por aquele que o feriu. Isso se parece muito com a vossa escuta paciente à mesa da cozinha depois de palavras duras, ou com a forma como acolheis de volta à família alguém que faltou a dois encontros — não com uma repreensão, mas com um sorriso e uma nova oportunidade. Em sentido espiritual, estais a apostar as vossas vidas no facto de que o amor é mais forte do que a morte.

O Papa Leão proclamou que a ressurreição de Cristo é “o início de uma nova humanidade”, a porta de entrada para a verdadeira terra prometida “onde reinam a justiça, a liberdade e a paz, onde todos se reconhecem como irmãos e irmãs”. Não se trata apenas da vida futura; trata-se de como construímos um mundo mais justo agora mesmo, casa por casa, despensa por despensa, renda após renda.

O beato Frédéric Ozanam tinha esta mesma visão quando escreveu: “A caridade é o Bom Samaritano que derrama óleo sobre as feridas do viajante atacado. O papel da justiça é prevenir o ataque.” Quando levais comida a um vizinho, sois o Bom Samaritano; quando vos perguntai por que esse vizinho não tem acesso a alimentos acessíveis, já estais a entrar na terra prometida da justiça. A nossa missão, como Sociedade, é “uma rede de amigos, inspirados pelos valores do Evangelho, que crescem em santidade e constroem um mundo mais justo através de relações pessoais e do serviço às pessoas necessitadas”. Caridade e justiça não são rivais; são os dois pés com os quais um vicentino caminha no percurso pascal.

O Papa advertiu que “estamos a acostumar-nos à violência, resignando-nos a ela e tornando-nos indiferentes”, falando de uma “globalização da indiferença” que nos torna insensíveis ao sofrimento, às divisões e às consequências económicas dos conflitos. Os vicentinos são, simplesmente, um antídoto para essa indiferença. Cada visita domiciliária, cada chamada devolvida, cada pessoa que conhecemos pelo nome é um pequeno mas real ato de resistência contra uma cultura que fecha os olhos.

A nossa Regra recorda-nos que não oferecemos transações; criamos e cultivamos relações. São Vicente de Paulo chamava aos pobres “nossos senhores e mestres” e viveu essa mensagem com o exemplo da sua vida. Sentar-se frente a frente com um vizinho necessitado, escutar mais tempo do que o estritamente “necessário”, continuar a voltar mesmo quando as soluções tardam: estes pequenos gestos proclamam que a ressurreição é real, que ninguém é descartável e que Deus não desistiu dos nossos bairros.

A Sociedade foi fundada “para a santificação dos seus membros através do serviço pessoal aos pobres”, e somos “mulheres e homens que procuram a santidade pessoal através das obras de caridade”. A Páscoa diz-nos que a santidade não é uma fuga do mundo, mas uma entrada mais profunda nele com Cristo. “Se temes a morte, ama a ressurreição!”, cita-se Santo Agostinho na mensagem do Papa. Para nós, amar a Ressurreição significa confiar que cada ato de serviço aparentemente “pequeno” faz parte de algo muito maior do que podemos ver.

O beato Frédéric dizia: “A nossa vocação é inflamar os corações, fazer o que o Filho de Deus fez, que veio lançar um fogo sobre a terra.” São Vicente dizia de forma célebre que “o amor é inventivo até ao infinito”; embora esta frase se refira a Deus, que é Amor e capaz de se transformar em pão e vinho por nós, nós vicentinos podemos aplicá-la à nossa missão evangelizadora, procurando uma criatividade na caridade que reflita a própria imaginação de Deus. Quando experimentais uma nova parceria para ajudar nos serviços públicos, desenvolveis uma solução criativa para reparações de automóveis, ou simplesmente perguntais: “O que mais podemos fazer?”, estais a permitir que o amor inventivo de Deus atue através de vós. A Ressurreição dá-nos a coragem de ser assim audazes, porque o resultado está nas mãos de Deus, não nas nossas.

O Papa Leão convidou-nos a deixar os nossos corações serem “transformados” pelo amor de Cristo, a “depormos as nossas armas”, e exortou os líderes a “não dominar os outros, mas a encontrá-los” através do diálogo. Podemos não ser generais ou presidentes, mas levamos “armas” de impaciência, cinismo ou controlo para o nosso ministério.

Aqui estão alguns hábitos pascais simples que podem ajudar-nos a depô-las e a aproximar-nos tanto daqueles que servimos como de Cristo:
• Começai cada visita com uma breve oração silenciosa pela paz naquele lar e no vosso próprio coração. Pedi ao Senhor Ressuscitado, que diz: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”, que guie a conversa.
• Escutai o “porquê” por detrás do “o quê”. Como nos recorda Frédéric, a caridade não pode esperar, mas devemos também olhar para os padrões e estruturas que mantêm os nossos vizinhos presos. Que cada visita refine a vossa perceção do que precisa mudar na vossa comunidade.
• Praticai um ato concreto de justiça todos os meses: participai numa reunião sobre habitação, apoiai uma iniciativa local contra desertos alimentares ou ajudai um vizinho a aceder a benefícios. Que a caridade de proximidade inspire a justiça que apoiais.
• Partilhai espiritualmente com a vossa Conferência. A nossa missão é “crescer espiritualmente oferecendo um serviço de pessoa a pessoa”; reservai tempo em cada reunião para a Escritura, a reflexão e a partilha pessoal, não apenas para relatórios de casos.
• Protegei a alegria. Mantende o vosso sentido de humor, partilhai histórias de esperança e celebrai as “pequenas ressurreições”: um vizinho que encontra emprego, uma relação reconciliada, um senhorio que finalmente cede. O Papa recordou-nos: “Ele é o único que faz novas todas as coisas.”

Em tudo isto, lembrai-vos de que a Páscoa não é um slogan que acrescentamos ao nosso trabalho. É a verdade mais profunda sobre quem somos e sobre o que Deus está a realizar em nós e através da nossa Sociedade. Cristo passou pela morte para nos dar vida e paz, e agora envia-nos, dois a dois, aos limiares onde essa paz é mais necessária. Ao baterdes às portas nas próximas semanas, sabei que levais a mesma luz que irrompeu pela primeira vez nas trevas do túmulo.

Obrigado pelas incontáveis e discretas formas com que viveis este mistério. Que o Senhor Ressuscitado renove a vossa coragem, a vossa compaixão e a vossa alegria, e que o beato Frédéric e São Vicente intercedam por nós enquanto nos esforçamos, de modo imperfeito, por fazer ecoar o Aleluia pascal em todos os lugares onde a esperança parece morta.

Tende a certeza das minhas orações por vós e por todos os nossos vizinhos necessitados.

Paz e bênçãos de Deus,
John Berry
Presidente Nacional SSVP USA

SSVP Global

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