Leão XIV pede que se “preserve o humano” diante do avanço da inteligência artificial
“Preservar o humano”. Com este apelo, o Papa Leão XIV coloca no centro da sua nova encíclica Magnifica Humanitas, publicada no passado dia 15 de maio, uma preocupação que hoje atravessa toda a sociedade: como preservar a dignidade da pessoa humana diante do avanço da inteligência artificial e de uma cultura cada vez mais dominada pela rapidez, pelos dados e pela automatização. Inspirado no Magnificat de Maria, o documento recorda que a verdadeira grandeza humana nasce da humildade, da fraternidade e da capacidade de servir os outros, especialmente aqueles que vivem em situações de vulnerabilidade.
A partir desta perspetiva, Leão XIV adverte que nenhum progresso será verdadeiramente autêntico se acabar por enfraquecer os vínculos humanos ou reduzir as pessoas a simples algoritmos e estatísticas. Por isso, ao longo da encíclica, contrapõe simbolicamente Babel e Jerusalém: diante de uma sociedade marcada pela autossuficiência tecnológica e por uma lógica baseada apenas na eficiência, o Papa propõe a imagem de Jerusalém reconstruída por Neemias juntamente com o povo, onde cada família assumia uma parte do trabalho e ninguém ficava excluído. Esta ideia de responsabilidade partilhada liga-se naturalmente ao carisma vicentino e ao trabalho quotidiano das Conferências, presentes onde a proximidade, a escuta e o acompanhamento continuam a ser essenciais.
Neste contexto, a encíclica reconhece também as oportunidades que a inteligência artificial pode oferecer em áreas como a educação, a medicina ou o acesso ao conhecimento, mas alerta ao mesmo tempo para novas formas de exclusão social, para o risco de uma economia guiada apenas pela automatização e para a tentação de substituir as relações humanas por dinâmicas impessoais e digitais. Leão XIV insiste que o desenvolvimento tecnológico não pode ser construído à custa da dignidade do trabalho humano nem do cuidado da Casa Comum, recordando que o progresso deve estar sempre ao serviço da pessoa.
É precisamente por isso que Magnifica Humanitas adquire uma ressonância especial para a Sociedade de São Vicente de Paulo. Num momento histórico em que muitas respostas parecem ser procuradas na distância e na imediaticidade, o Papa volta a colocar no centro a importância do encontro pessoal, da responsabilidade partilhada e de uma caridade vivida na proximidade. Uma visão que se liga diretamente à missão vicentina e que recorda que o desenvolvimento tecnológico só será verdadeiramente humano quando estiver ao serviço do bem comum e do fortalecimento dos laços sociais.
Texto completo da encíclica Magnifica Humanitas
